meu primeiro impulso foi ajudar aquela mulher.
ela tava sentada no ponto de taxi, tinha uma caminhonete do lado, com a porta aberta, e um homem gritando, que podia ser seu marido, amante, irmão, tanto faz. ele gritava com ela, chamava de vagabunda, biscate, escrota filha da puta, e gritava alto, com força, batendo na estrutura do ponto de taxi tão forte que parecia que não ia aguentar. eu tava passando, fumando meu cigarro, diminui o passo pra tentar ouvir melhor.
eu só ouvia grito até chegar mais perto e conseguir ver a cara dela, cara cheia de choro. ela tava desesperada, ele falava pra ela entra no carro sua vagabunda! desceu do teu salto agora é? piranha! vagabunda! e repetia os xingamentos porque parecia não ter mais o que dizer.
o meu primeiro impulso foi o de ajudar aquela mulher.
porque a gente sabe como é homem né, homem inconsciente fala merda, faz merda, bate, faz besteira a custo de nada, eu sei bem como é, não nego ter em mim um pouco disso também. e ele parecia monstro, mas era tão honesto o que ele dizia. vagabunda saía da boca dele tão simples, tão plano e puro que eu acreditei nele. por um momento, logo que passei por eles, e não podia mais olhar pra trás pra ver se eles ainda estava do mesmo jeito, eu pensei que talvez, talvez… ele estivesse certo.
talvez ela fosse mesmo uma vagabunda. talvez ela o tivesse traído, chutado a honra dele no saco, e ficado ali, esperando, não sei o quê, ele descobrir? ele ir embora antes?
porque ele falava com tanta verdade… e eu não acreditei…
de repente eu percebi que eu não acreditei no choro dela. eu acreditei nos gritos, acreditei na porta do carro batendo com força e no barulho de arrancada que ouvi depois.
o carro passou voando do meu lado.
eu olhei uma última vez.
meu segundo impulso foi bater naquela mulher.